ANÁPOLIS GOIÁS
Atualizado em 04/04/2024 - 11:57
Infectologista da Palmed France denuncia inação de países europeus diante de crise humanitária. (Foto: Reprodução / Agência Brasil)

O médico francês Pascoal André, de 60 anos, trabalhou como voluntário no Hospital Europeu, em Khan Yunis, no sul de Gaza, e relatou, em entrevista à Agência Brasil os horrores que viu ao trabalhar atendendo vítimas da guerra.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas 10 dos 36 hospitais de Gaza seguem funcionando e, ainda assim, de forma parcial, com escassez de medicamentos, combustível pessoal.

Pascoal registrou imagens chocantes de recém-nascidos subnutridos, na tentativa de denunciar a crise humanitária. (Foto: Reprodução / Pascoal André - ONG PalMed France)
Pascoal registrou imagens chocantes de recém-nascidos subnutridos, na tentativa de denunciar a crise humanitária. (Foto: Reprodução / Pascoal André – ONG PalMed France)

 

Relato do médico

“Quando chegou o 7 de outubro, decidi reservar um tempo para ir a Gaza. Foi muito difícil encontrar pessoas e ONGs com permissão para cruzar a fronteira. Temos um acordo com a ONG Fundação Rahma e, desde 25 de janeiro, temos um rodízio de 20 médicos indo pra lá.

Situação no hospital

“No Sul de Gaza, você tem um hospital, o maior deles, em Khan Yunis, com apenas cinco salas de cirurgia e está superlotado. As equipes médicas e as paramédicas estão muito exaustas.

Os médicos não são bem remunerados, talvez US$ 100 a US$ 500 em cinco meses e o custo de vida é muito alto. Se precisar de farinha, é muito caro. Um quilo de açúcar custa US$ 10. Alguns deles estão realmente exaustos e muito mal mentalmente.

Eu, como infectologista, precisei atuar sem antissépticos na sala de cirurgia, sem sabão, sem água para limpar o paciente antes da operação. Temos visto muitas infecções que resultam em complicações, com morte e amputações. É uma pena porque você tem todos os medicamentos, todos os aparelhos, a seis ou oito quilômetros, não muito longe do hospital, mas bloqueados na fronteira do Egito.”

Triagem

“É sempre a mesma coisa: às 5 da manhã, bum, ban, bum (barulho de bombardeios) e, meia hora depois, os primeiros carros chegando, carros particulares, com muitos pacientes chegando nas emergências sem qualquer triagem, alguns deles moribundos, muito graves.

Trabalhei com muitos cirurgiões. Gravei muitos relatos sobre o que aconteceu. Temos muitos vídeos e fotos do tipo de lesões que os pacientes sofreram. E realmente, os atiradores escolhem matar crianças, matar mulheres grávidas ou feri-las para o resto da vida. É realmente um desastre humano.

Por outro lado, apesar da situação dramática, eles sobrevivem em solidariedade. E foi muito impressionante ver que a vida ainda funciona. Eles têm uma hospitalidade muito importante, apesar da situação terrível. E eles têm uma fé muito profunda.”

Fome

“A desnutrição provoca uma taxa enorme de infecções, seu corpo não consegue reagir. Muitos bebês têm que sair do hospital com a mãe seis horas após o parto ou 16 horas após a cesariana.

Mas eles não vão para uma casa tranquila. Eles vão para uma barraca e está muito frio. E alguns deles estão morrendo por causa da desnutrição e da hipotermia. É realmente desumano e não é aceitável que os países europeus e os países norte-americanos apoiem isto.”

Tentativa de denúncia

“É muito, muito difícil para mim e para os meus amigos voltar aos Estados Unidos ou à Europa e falar sobre a situação e ver o silêncio da mídia, da política, e da maioria dos cidadãos à sua frente. Essa experiência para mim, e para a maioria de nós que esteve lá, é um sofrimento real maior do que a experiência pessoal que vivi lá.

Voltamos com muitos depoimentos dos médicos deste hospital e não fomos ouvidos de verdade nos países europeus. Passamos no Parlamento Europeu, mas apenas três deputados nos receberam. É uma vergonha. A maior parte dos cidadãos, dos políticos e dos meios de comunicação não falam sobre o tema com liberdade porque temem a acusação de anti-semitismo e de apologia do terrorismo e, por isso, calam-se.”

Retorno a Gaza

“Espero voltar em junho, mas tenho que tomar cuidado porque é muito difícil ser um repórter. Eu quero ser médico, mas quando o paciente sofre bombardeios e tiros, sinto que tenho que registrar o que ocorre.”

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