O prefeito Márcio Corrêa (PL) divulgou, na última semana, um vídeo que mostra um espaço totalmente reformado do Palácio da Cultura, que já foi a antiga Prefeitura, hoje ocupado por secretarias municipais e pelo Teatro Municipal.
Na legenda, ele diz ter recebido um projeto “extraordinário” e afirma que o tema será discutido com quem “vive e faz a cultura” da cidade.
A publicação levou muita gente a lembrar da história do edifício. Entre as vozes de destaque está a do artista visual e arquiteto Talles Lopes, que comentou o post e publicou uma série de informações sobre o local.
Um prédio com assinatura
Conhecido como Palácio da Cultura, o edifício foi projetado por Gladson da Rocha (1923-2007), arquiteto que integrou a equipe de Oscar Niemeyer na Novacap, responsável pela construção de Brasília.
A obra começou na década de 1970 e foi inaugurada em 1982. O Arquivo Público do Distrito Federal mantém um fundo dedicado ao arquiteto, com registros de sua atuação em Anápolis.
Para Talles, o prédio é um “pavilhão modernista”, tipologia comum nos palácios de Brasília, e um registro da modernização da cidade e do Brasil Central.
Segundo ele, descaracterizar essa arquitetura seria uma agressão à história e à identidade de Anápolis, e qualquer intervenção deveria consultar entidades locais e regionais.

O edifício mistura traços do modernismo e do brutalismo. Os pilares e vigas, hoje pintados, tinham originalmente concreto aparente, característica brutalista.
O projeto previa ainda uma intervenção na atual Praça Deputado Abílio Wolney, a Praça do Ancião, que não saiu do papel: a praça foi construída entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990, sem seguir a proposta de Gladson.
Sem tombamento
Apesar da importância histórica e arquitetônica atribuída ao prédio, o Palácio da Cultura não é tombado, o que o deixa sujeito a mudanças.
O município tem, desde 2002, o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural (Comphica), de caráter consultivo, e os tombamentos costumam partir do Legislativo.
Em contrapartida, estruturas recentes e, algumas até privadas, receberam status de patrimônio em tempos recentes. O painel de cerâmica de Luiz Olinto, na fachada do Centro Administrativo Adhemar Santillo, foi tombado no segundo semestre de 2024, logo após a inauguração do prédio.
A Casa Rosa, construída nos anos 1980 e projetada por Marcos Tomanik, foi tombada em junho de 2026. Já neste mês, a Câmara aprovou em segunda votação o projeto que tomba a casa de Anapolino de Faria, posteriormente sancionada pelo Executivo.

O contraste levanta a dúvida sobre os critérios usados na cidade. Enquanto isso, edifícios históricos, como o Palácio da Cultura, seguem sem proteção.