Um caso envolvendo uma adolescente de 15 anos, que procurou ajuda na escola após relatar agressões do homem com quem mantinha um relacionamento, chamou a atenção do Plantão Policial da Rádio São Francisco 97,7 FM. O suspeito, de 38 anos, foi preso pela Polícia Militar em Anápolis.
A situação, no entanto, vai além do crime e levanta uma discussão que precisa envolver toda a comunidade: como proteger crianças e adolescentes antes que uma situação de violência aconteça?
Foi justamente com esse olhar voltado à prevenção que a Rádio São Francisco FM ouviu, nesta quarta-feira (26), a delegada Aline Lopes Martins Cardoso, titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) da Polícia Civil de Anápolis.
Ao repórter Jonathan Cavalcante, a delegada comentou que a experiência no atendimento de ocorrências envolvendo crianças e adolescentes mostra uma relação preocupante entre o início precoce de relacionamentos e a maior exposição das meninas a situações de violência.
“Quanto mais cedo, principalmente as meninas, iniciam um relacionamento ali por volta dos 14, 15 anos, mais chances de sofrerem violência doméstica elas têm”, alertou Aline Lopes.
Confira a entrevista completa
Quando o que parece amor pode esconder uma situação de risco
Para a delegada, um dos grandes desafios está justamente no fato de que crianças e adolescentes nem sempre conseguem reconhecer que estão diante de uma situação perigosa.
Uma relação pode começar com a sensação de carinho, proteção ou pertencimento. Aos poucos, porém, podem surgir controle, isolamento, dependência emocional e financeira e outras formas de violência.
Aline Lopes explica que um relacionamento iniciado muito cedo também pode trazer consequências para outras áreas da vida. Uma gravidez na adolescência, por exemplo, pode levar ao abandono dos estudos e dificultar o acesso ao mercado de trabalho.
“Ela se vê ali muitas vezes na dependência financeira muito cedo, do companheiro, e isso tudo contribui para um ciclo de violência, tanto a dependência financeira quanto a dependência emocional”, explicou.
É nesse contexto que a delegada chama a atenção para a responsabilidade dos adultos. Pais, familiares, professores e toda a comunidade precisam estar atentos a mudanças de comportamento e, principalmente, às relações estabelecidas por crianças e adolescentes.

A internet também pode abrir portas para o perigo
O alerta não termina nos relacionamentos presenciais.
Durante a entrevista, a delegada também chamou atenção para o crescimento dos crimes virtuais envolvendo crianças e adolescentes. Redes sociais, aplicativos e plataformas digitais, como Discord, TikTok e Instagram, por exemplo, podem aproximar menores de pessoas que, inicialmente, parecem apenas novos amigos.
“A internet realmente abre um portal com inúmeros perigos, às vezes até maiores do que os presentes nas ruas”, afirmou Aline Lopes.
Segundo ela, muitos pais acreditam que os filhos estão protegidos simplesmente por estarem dentro de casa. Mas o celular pode colocar crianças e adolescentes em contato com desconhecidos, conteúdos inadequados e situações que os responsáveis sequer imaginam.
Por isso, a orientação é que os pais acompanhem de perto o uso da internet, conheçam as plataformas utilizadas pelos filhos e façam uso das ferramentas de controle parental.
“Criança e até adolescente não têm que ter acesso livre à rede social, a plataformas”, orientou a delegada.
Pais também precisam ouvir os sinais
Outro ponto destacado por Aline Lopes é a influência das amizades. Na adolescência, é natural que os amigos ganhem importância, mas nem toda relação representa uma influência positiva.
A delegada afirma que, na rotina da DPCA, não são raras as situações em que crianças e adolescentes acabam envolvidos em problemas depois de ignorarem orientações dos próprios pais.
Por isso, ela deixa um recado direto aos jovens: “A amizade só é boa se for para o seu bem.”
E há um sinal que merece atenção especial: quando alguém pede para que o adolescente esconda a amizade ou determinada situação dos pais.
“Se está te chamando para fazer alguma coisa errada, para desobedecer o seu pai, para esconder o segredo do seu pai e da sua mãe, isso é um sinal de alerta”, afirmou.

Prevenção começa antes da ocorrência
O caso que motivou o alerta desta quarta-feira (26) mostra a importância de falar sobre o assunto, mas a preocupação do Plantão Policial, da Rádio São Francisco FM e da comunidade responsável vai além de uma ocorrência específica.
A questão é perceber os sinais antes que uma criança ou adolescente se torne vítima.
Para isso, a orientação é que pais e responsáveis estejam presentes, conversem com os filhos sem julgamentos, conheçam suas amizades e acompanhem o que eles fazem no ambiente digital.
Como reforça a delegada Aline Lopes, proteger crianças e adolescentes não significa apenas agir quando um crime acontece. Também significa orientar, estabelecer limites e criar um ambiente em que eles se sintam seguros para pedir ajuda quando alguma coisa não estiver certa.
Leia mais:
SUS amplia teleatendimento para pessoas com problemas em apostas online