Cólicas intensas, alterações menstruais e dores durante as relações sexuais são sintomas que muitas mulheres aprendem a considerar normais, mas que podem indicar doenças como a endometriose.
O alerta foi feito pela médica Natália Sousa Takaki, pós-graduada em Ginecologia e Obstetrícia, em entrevista ao programa São Francisco News, da Rádio São Francisco 97,7 FM, nesta sexta-feira (30), com os apresentadores Jonathan Cavalcante e Newton Rodrigues.
Quando a dor deixa de ser normal
Segundo a médica, o ponto central é o impacto dos sintomas no dia a dia.
“A partir do momento em que essa dor te impede ou te atrapalha a fazer alguma coisa do cotidiano, como trabalhar, ir para a academia, quando ela começa a atrapalhar os seus relacionamentos, a paciente precisa ligar esse alerta”, afirmou.
Entre os sinais que merecem atenção estão cólica intensa, sangramento excessivo, dor ao evacuar, distensão abdominal e dor na relação sexual.
A médica ressalta que esse último sintoma pode ter várias causas, “mas não é normal” e deve ser investigado.
O que é a endometriose
A doença ocorre quando células do endométrio, camada que reveste o útero e descama na menstruação, se instalam em outros locais, como intestino, ovários, parede abdominal e ligamentos. Como esse tecido também reage aos hormônios, inflama e tende a sangrar a cada ciclo, o que provoca os sintomas.
A causa ainda não é conhecida, e a teoria mais aceita é a do refluxo de sangue menstrual pelas trompas.
Diagnóstico e riscos
O exame considerado padrão ouro é a videolaparoscopia, procedimento cirúrgico que nem sempre é indicado. Por isso, a ressonância da pelve e o ultrassom com preparo intestinal são os principais aliados na investigação.
Quanto mais o diagnóstico demora, maiores as consequências. A inflamação repetida a cada ciclo pode causar aderências entre órgãos e obstruir as trompas, podendo levar à infertilidade.
Em casos graves, é necessária até a retirada de parte do intestino.
“Quanto mais tempo a paciente passa sem realizar esse diagnóstico, mais tempo ela fica exposta a esses ciclos de inflamação”, explicou.
Nem toda paciente, porém, enfrenta dificuldade para engravidar.
A doutora lembrou que outras condições têm sintomas parecidos, como miomatose, adenomiose e síndrome disfórica pré-menstrual, o que reforça a necessidade de avaliação médica.
Ela destacou ainda que a endometriose hoje é vista como doença multifatorial, que exige acompanhamento de ginecologista, coloproctologista e nutricionista, além de atividade física e alimentação equilibrada.
Falhas no atendimento e sobrecarga das mulheres
A médica apontou que o problema tem duas frentes: a falta de informação das pacientes e o despreparo ou a sobrecarga de parte do sistema de saúde.
“A anamnese é essencial no diagnóstico da endometriose. Você precisa escutar o que o seu paciente está sentindo e dar valor para cada informação”, disse.
Ela defendeu que o médico da atenção primária, mesmo sem tratar o caso, saiba reconhecer sinais de alarme e encaminhar a paciente ao especialista.
Outro obstáculo é a rotina feminina. “A mulher, atualmente, tem que dar conta de tudo: da casa, do trabalho. Observo que muitas ficam na sala de espera do meu consultório trabalhando, porque não podem deixar de trabalhar”, relatou, o que leva muitas a adiar exames e o tratamento.
Diálogo em família
A especialista destacou o papel de mães, avós e familiares, que podem perceber sintomas e estimular a busca por atendimento. Ela alertou para a desinformação de pesquisas na internet e redes sociais e para a frase “é normal, está no período menstrual”.
“A experiência deve ser compartilhada. Às vezes a paciente conversa com a tia, com a prima, com uma amiga, e descobre que pode estar acontecendo o mesmo com ela”, afirmou.
Recado final
A médica recomendou que toda mulher sem comorbidades faça acompanhamento ginecológico no mínimo uma vez por ano, e a cada seis meses em casos específicos.
Aos homens, pediu que também priorizem exames de rastreamento, pois “as consequências de se descobrir qualquer comorbidade tardiamente cobram um preço muito alto”.
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