Imagens geradas por inteligência artificial (IA) vêm ocupando o lugar de fotografias reais em Anápolis, muitas vezes em situações nas quais fotos “de verdade” estavam disponíveis ou poderiam ter sido facilmente obtidas.
Nas últimas semanas, a reportagem da Rádio São Francisco 97.7 FM observou o uso do recurso na comunicação institucional da Prefeitura e, com mais frequência, em um portal de notícias sediado em Goianésia que também cobre Anápolis.
O caso que chamou mais atenção envolve a missa de sétimo dia do deputado Amilton Filho, realizada na Catedral Bom Jesus em 2 de outubro, ilustrada pelo portal Meganésia com uma imagem gerada por IA.
Na ocasião, uma imagem do deputado foi projetada na fachada da igreja. Abaixo, o comparativo entre uma foto registrada no local e a imagem gerada que ilustra a matéria do portal.


A assessoria do deputado disponibilizou imagens do momento, e a cerimônia teve transmissão ao vivo, com possibilidade de capturar frames do momento.
O caso não é isolado. A reportagem identificou que a ampla maioria das imagens de destaque do portal é gerada por IA, muitas vezes em tentativas de reconstituir cenas para as quais há registros disponíveis, principalmente via assessorias.
Há cerca de seis semanas, o Meganésia passou a identificá-las como “imagem ilustrativa gerada por IA”, no site e nas redes sociais. Mas não todas, já que o caso em destaque aparece sem identificação no site e, no Instagram, não é possível encontrá-la atualmente.
Sem resposta do portal
A reportagem procurou o Meganésia por WhatsApp na última terça-feira (13), às 9h17, porque o e-mail de contato não foi localizado.
Às 11h58, enviou seis perguntas sobre critério editorial, aviso ao leitor, revisão humana e política interna. Não houve resposta até a publicação desta matéria.
Presença e responsabilidade
Para o fotojornalista Guilherme Alves, a diferença está em quem estava no local. “O fotojornalista tem o papel de criar um registro histórico dos fatos, e ele ganha em credibilidade pois estava presente”, afirma.
Ele lembra que a foto publicada leva o nome de quem a fez, uma testemunha ocular que pode ser questionada, e defende que cabe ao veículo informar a origem da imagem “a fim de poder responder por ela”.
Caso pontual na Prefeitura
O recurso também apareceu na comunicação pública de Anápolis. A Secretaria Municipal de Comunicação (Secom) divulgou em 3 de outubro uma imagem gerada por IA para anunciar a gratuidade do transporte coletivo no dia da eleição.
A imagem, no entanto, exibia passageiros com anomalias anatômicas visíveis em braços e pés. Em nota, a Secom disse que a imagem teve caráter ilustrativo, que o uso de IA é pontual e restrito a casos excepcionais e que o crédito dado a um fotógrafo foi um erro, corrigido depois.

Guilherme avalia que a IA ocupa novos espaços, mas que o fotojornalismo segue como fonte confiável. A foto verdadeira, diz, “sempre vai valer mais” para quem busca a realidade numa sociedade na qual a artificialidade vai se expandindo.