Xingamentos disfarçados de preocupação. Ciúme apresentado como prova de amor. Isolamento que começa com frases de carinho. A violência psicológica raramente se anuncia, e é justamente por isso que se torna difícil de identificar e combater.
Compreender esse ciclo é um dos pilares da campanha “Não Me Mate! Mais uma, menos uma. Até quando?”, da Fundação Frei João Batista Vogel (FFJBV), voltada ao enfrentamento da violência contra a mulher.
A psicóloga e psicanalista Rafaella Alves explica que a Lei Maria da Penha define a violência psicológica como qualquer conduta que cause dano emocional, baixa autoestima ou controle das ações, comportamentos, crenças e decisões da mulher.
Na prática, porém, reconhecer essa categoria de violência é um desafio. Tanto para quem está de fora quanto, especialmente, para quem está dentro da relação.
“O agressor não tem cara de agressor. Ele às vezes é aquele pai de família que vai buscar a criança na escola, é aquele profissional excelente no trabalho, mas dentro de casa xinga, faz a mulher duvidar de si mesma”, disse a especialista.
Segundo Rafaella, o ciclo costuma seguir um padrão: encantamento, isolamento progressivo dos vínculos afetivos e, com o tempo, dependência emocional.
A vítima passa a interpretar o controle como cuidado e o ciúme como amor. “O ciúme não é uma forma de amar, é uma violência também”, reforça.

Gaslighting
A psicanalista chama atenção ainda para o chamado gaslighting, técnica de manipulação em que o agressor leva a mulher a duvidar da própria percepção da realidade.
Frases como “você está louca” ou “não foi isso que aconteceu” vão minando a autoconfiança da vítima até que ela não consiga mais distinguir o que é abuso do que é normalidade.
“Quando você está com sintomas de ansiedade, depressão e baixa autoestima, você não consegue ter um pensamento crítico para ver o que está acontecendo na realidade”, explica.
O impacto atravessa gerações. Crianças que crescem expostas a esse ambiente tendem a reproduzir os mesmos padrões, com meninas buscando relações de controle, meninos aprendendo que controlar é uma forma de amar.
A campanha “Não Me Mate” segue até dezembro de 2026, com ações em espaços públicos, rodas de conversa e diálogos com grupos que trabalham com agressores, em Anápolis e Catalão.
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