• Cidadania financeira: um direito cujo estímulo depende de todos Terça-feira, 10/12/2019 às 09:40:37

    Weber Witt

    “Os bancos querem que a gente fique devendo e enrolado a ponto de vender a alma para pagar juros”. Essa é, ainda, a mentalidade do brasileiro quando se trata de instituições financeiras. Na contramão do senso comum, membros de diferentes organizações, entidades e unidades do Banco Central do Brasil (BCB) têm se empenhado para mudar essa visão.

    Esse processo, no entanto, não depende apenas do Sistema Financeiro Nacional. Requer a participação coletiva e o esforço diário do cidadão. Somente após compreender essa responsabilidade foi possível ao vendedor Carlos Fernandes realizar, em novembro deste ano, o sonho da casa própria.

    Para isso, o planejamento começou cinco meses antes ao buscar orientação. A atitude do vendedor foi determinante para que o objetivo não fosse inviabilizado em razão da então restrição de crédito e de um processo de divórcio inconcluso. Segundo Carlos, a situação afastou diversos corretores.

    “Uma, em especial, me ouviu e me encaminhou para um correspondente bancário, que me orientou e me apresentou o serviço que mais se adequava à minha realidade financeira. Não fosse isso, eu não teria realizado o sonho da casa própria”, afirma, consciente da decisão que tomou.

    Decisão que nem sempre foi assim, segundo Carlos. O vendedor conta que há 10 anos utilizou, de forma inconsequente, um crédito direto e que levou quatro anos para saldar o empréstimo. A própria irresponsabilidade, segundo ele, fez com que, no passado, pensasse que os bancos querem que os clientes vendam a alma para pagar juros.

    “É aí que a gente percebe a falta que a educação financeira faz na vida das pessoas”, reconhece. Se esse tipo de educação faltou ao vendedor, hoje está sendo garantida a Rafael Freire Rodrigues. Com apenas seis anos, ele já tem noção de como gerenciar os próprios recursos financeiros.

    No caso de Rafael, isto é, planejar o uso e poupar. Em um contexto adequado para a idade, ele está sendo instruído a ser um cidadão consciente no futuro. Essa instrução começou no início deste ano na escola em que ele estuda, em Anápolis. Para que houvesse resultado prático, foi necessário criar um cenário fictício paralelo à realidade.

    A metodologia, como explica Eusânia Silvestre, assessora pedagógica do colégio, foi criar o Mercadinho Santa Clara, além da adoção de livros interativos e paradidáticos. “Os alunos confeccionam os personagens dos livros e, posteriormente, eles vêm ao mercado fazer compras, assim como os personagens fazem nos livros”, pontua.

    “Se não houver didática, os alunos não assimilam de forma significativa. O livro facilita essa aprendizagem", afirma a assessora pedagógica Eusânia Silvestre | Foto: Weber Witt  

    Educação financeira não é comprar tudo

    Essa lição é o pequeno Rafael quem ensina. Para fazer um bolo, por exemplo, ele recomenda fazer uma lista. “Se você já tem leite e ovos, compre somente os ingredientes que ainda faltam. Não fique pegando outras coisas para inventar esse bolo”, diz, sentado no caixa do mercado Santa Clara.

    O dinheiro que sobra de troco, quando ele faz compras reais, acompanhado dos pais, Fernanda e Roberto, guarda para completar mais dinheiro para depois colocar na poupança. “Quando tenho muito, eu gasto um pouquinho. O que sobra, eu coloco de novo no banco. Vou colocando mais e gastando pouquinho”, conta.

    Ele define a temática como gente grande: “Tem uma coisa que você precisa saber sobre educação financeira: pegue o primeiro nome [educação], depois fala ‘financeira’. Então, você precisa respeitar o financeiro. É, simplesmente, economizar. Respeitar é economizar”, diz, exatamente com essas palavras.

    Dinheiro, mesmo que seja pouco, é preciso dar valor

    Valor, para Rafael, significa – nas palavras dele – não gastar com coisas que são horripilantes, tipo balinha. Afinal, “balinha não enche barriga de ninguém”, opina o aposentado Davi Maria dos Santos, de 67 anos, que vive sozinho em Anápolis. Preço e valor têm pesos distintos para Davi, que não sabe ler nem escrever.

    O aposentado perdeu a mãe aos 12 anos. Como não conheceu o pai, foi morar com os tios. “Eles não me ensinaram nada. Só falavam para trabalhar cedo, de quando o sol apontava até escurecer. O que eu sei foi a natureza que me ensinou”, conta. O dinheiro que Davi recebe, “malemá dá para comer e cumprir com o aluguel”, – queixa-se.

    Com isso, segundo ele, não é possível poupar; embora consiga, conscientemente, economizar. “Tem que procurar o que é mais barato. Se for investir no caro, a pessoa não dá conta e a gente não pode fazer o compromisso de ficar devendo”, afirma, ao acrescentar que o dinheiro deve ser usado para comprar somente o que é necessário.

    Segundo Davi, passa falta mas não compra fiado. "Nessa vida que a gente anda, eu não devo uma prata de 10 centavos para ninguém", afirma | Foto: Weber Witt  

    Para aumentar a qualidade de vida de Davi, o pequeno Rafael sugere formas possíveis de ele aumentar a renda. Antes, porém, Rafael recomenda que Davi leve uma mesa para sentar perto de uma escola para quando os alunos chegarem, ele possa aprender “um pouquinho”.

    “Ele pode comprar muda de milho e começar vendendo pipoca pura. Aí ele escreve na banca: ‘Pipoca Pura – milho estourado de verdade’. Depois, ele pode comprar leite condensado para agradar mais as pessoas. Ele pode vender salada de frutas e doces também”, sugere Rafael, de seis anos, ao aposentado, de 67.

    Mesmo ensinado pela “natureza”, Davi garante que não teria problemas para voltar troco. “Pego uma nota e só de ver sei quanto vale. Pode jogar um monte de dinheiro na minha mão que eu sei contar e separar tudinho, mas não sei pegar a caneta e escrever nada”, afirma.

    No mercado Santa Clara, por exemplo, Davi também não teria dificuldades. “Chego no caixa e sei quanto deu. Na conta do mercado, ninguém me passa a perna. Eu não sabia olhar a hora. Seja de ponteiro ou de número, eu sei as horas. Aqui está 16 horas e 59 minutos”, disse, corretamente, ao apontar para o próprio celular.

    Articular o que se tem com o que se quer

    De acordo com o doutor em Políticas Públicas e mestre em Desenvolvimento Econômico, professor Marcelo José Moreira, a educação financeira não requer, em última instância, a educação formal. Requer, segundo ele, articular o que se tem, o dinheiro; com o que se quer: gastar.

    Independentemente do grau de instrução ou classe social, a cidadania financeira é um direito de todos. Para exercer, assim, esse direito de forma consciente, o professor Marcelo Moreira explica que o mercado financeiro deve ser descrito ao aposentado, por exemplo, como outro qualquer, diferenciando a mercadoria deste caso: o dinheiro.

    “Com base de certeza, o senhor Davi sabe usar o dinheiro no mercado de bens. Bastaria dar-lhe conhecimento de que existe um mercado específico para o dinheiro”, esclarece o doutor em Políticas Públicas e mestre em Desenvolvimento Econômico. Esse conhecimento, no entanto, não se daria mais pela “natureza”, mas por meio de parcerias efetivas.

    Uma delas, segundo o professor, seria entre os entes governamentais e universidades que oferecem cursos como Administração, Contabilidade e Economia. “É importante que haja um conjunto de instituições que favoreça um canal de informação com a população em geral. Isso envolve criança, jovem, adolescente e idosos. Envolve a família, envolve adultos”, sustenta.

    Nesse sentido, o Banco Central do Brasil (BCB) apresentou, em 2018, a primeira edição do Relatório de Cidadania Financeira. O documento foi fruto de um esforço coletivo, que abrangeu membros da academia, do setor privado e de um conjunto de instituições financeiras. O tema, no entanto, começou a ser debatido cinco anos antes.

    Fóruns de discussões como esses são importante porque, via de regra, conforme afirma o professor Marcelo Moreira, a população carece de informação sobre o tema. “É importante que busque profissionais especializados, que podem estar dentro das universidades ou no próprio mercado. Quanto mais canais de informação, mais confiante e mais consciente o brasileiro estará diante do mercado financeiro”, reitera.

    Marcelo defende que a educação financeira faça parte do dia a dia da sociedade para que a necessidade de crédito – aquele adquirido de forma não consciente e não planejada – seja reduzido porque ocorre de ser motivada por um consumismo sem necessidade. “O controle financeiro passa pelo conhecimento sobre o que é, de fato, a educação financeira. Cidadania financeira pressupõe poder de opção, poder de escolha”, assegura o professor.

    Endividamento maior em 3 anos

    O endividamento das famílias voltou a crescer em 2019. De acordo com o BCB, em dados divulgados em agosto, é o maior nível em três anos. O consumismo sem necessidade é um dos causadores do endividamento das famílias, segundo profissionais de saúde mental, ouvidos pela reportagem.

    Como forma de frear a compulsividade, é fundamental a capacidade de observar as possibilidades de consequências da decisão para se decidir de forma conscienciosa. Analisar se os ganhos a curto prazo realmente valem a pena, se as perdas são prejudiciais ou não. Pois, o completo bem-estar de um consumidor de serviços financeiros, passa, primeiro, pela decisão consciente.

    Fotos: Weber Witt