• Matéria Especial | A cada 40 segundos o som de uma vida é silenciado no mundo Segunda-feira, 02/09/2019 às 12:59:46
    Por Weber Witt, especial Setembro Amarelo
     
    Refugiada em um quarto escuro, porta e cortinas fechadas abafaram o ambiente. À luz do tato, um nó foi preparado na cabeceira da cama. Sob regência da própria força, a respiração se tornou diminuta e lentamente o sufocamento adormeceu a boca. Mas o silêncio perturbador do quarto foi rompido pela ação rápida e aflita de uma filha.
     
    Segundo estatísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS), tirar a própria vida é a segunda principal causa de morte em todo mundo. O Brasil é o oitavo do ranking. No país, o índice de suicídios entre pessoas de 15 a 29 anos é de 6,9 casos para cada 100 mil habitantes. Taxa relativamente baixa se comparada aos países que lideram, como a Índia e Cazaquistão.
     
    Os motivos podem ser os mais diversos. No caso da mãe de Érica Gomes, foi decorrente de um quadro depressivo que se desenvolveu após um acidente de trânsito. Atropelada na faixa de pedestre, Nilma ficou em coma durante um mês. “Após sair do hospital ela falava que não queria mais viver, que a vida não fazia mais sentido”, relata. Erica mostra uma foto dela de antes, a aparência se compara à da filha: cabelos pretos longos e olhos grandes. Mas, a vaidade de antes foi consumida pela depressão.
     
    Em um silencioso ambiente de trabalho, calmaria específica daquele horário, a maquiagem da auxiliar administrativa se desfez ao contar que a sensação de incapacidade se tornou o principal argumento da mãe. “Ela se responsabiliza muito por não servir mais para as filhas. Diz que depois do acidente não pôde pagar mais nada para nós”, expressou com os olhos vermelhos e cílios destacados. Diz ouvir, ainda, que, em vez de cuidar dela, poderia estudar e se formar. “Eu não a culpo por isso. Antes ter minha mãe a ficar sem ela”, se conforta.
     
    Junto com o pai e a irmã, tiveram que redobrar a atenção dentro de casa. “Não podíamos ficar longe dela, assim evitaríamos o uso descontrolado de remédios que poderia levar à morte”, conta. “Tem dia que ela está numa alegria, mas tem dia que ela está numa tristeza tão profunda que só de olhar você fica mal”, disse com a voz trêmula.
     
     
    Setembro foi escolhido como mês de prevenção desse tipo de mortalidade. A campanha, criada pela Associação Internacional de Prevenção do Suicídio, existe desde 2014 e entrou na agenda nacional do Ministério da Saúde. A ação é realizada em todo o país e ganhou a adesão de várias cidades. Inúmeros monumentos ganharam iluminação amarela para chamar a atenção da população para o tema e a prevenção.
     
    De acordo com a psicóloga Florença Ávila, a problemática é recorrente, mas pouco falada. “Talvez por dificuldade e tabus sociais e culturais que nós temos”, afirma. Ela diz que o Setembro Amarelo é só uma forma de a sociedade se mobilizar mais. “Esse tema deveria ser debatido, pensado, refletido em qualquer época do ano”, sugere. Segundo ela, o suicídio pode estar associado a alguma psicopatologia, como o transtorno bipolar ou esquizofrenia. “Já o suicídio, associado com a depressão grave, geralmente é anunciado em comportamentos, fala ou algum sinal que revela o desejo de morte”, explica.
     
    Florença orienta que o mais importante é criar uma rede de proteção. “Os indivíduos que convivem com essa pessoa devem estar atentos aos sinais. Principalmente os familiares, que, às vezes, negligenciam, acham que não tem nada a ver. O mais importante é buscar ajuda profissional”, esclarece. A psicóloga lembra que o suicídio tem sido recorrente nesse momento de crise econômica do país. “Em nossa sociedade esta questão é um fator preponderante. As pessoas têm construído o sentido da vida associado aos recursos materiais e de consumo. O que é um grande problema porque a vida é mais do que isso”, pontua.
      
    A professora Mayara Costa, de 30 anos, sabe bem que a vida não se resume a isso. Sobrevivente de duas tentativas de suicídio, quando questionada sobre o novo sentido da vida, responde após uma longa e reflexiva pausa. “Buscar sempre mais, não se contentar com o que tem. Hoje o que me motiva a viver são os sonhos”, sorri ao falar. Apesar de as mãos ainda suarem ao falar sobre o assunto, admite ter superado a depressão após o fim de um namoro. “Eu venci a depressão, mas não venci a mágoa. Perdi o romantismo. Hoje não me abalo facilmente como antes”, extraiu de aprendizado.
     
    Segundo ela, o movimento Setembro Amarelo é muito importante, mas a abordagem deve ser mais ampla. Antes, a máxima de Mayara era “morre que passa”, mas, ainda assim, não foi motivo para ter renunciado as forças. “Quantas pessoas desistem no meio do caminho e se matam. Mesmo não tendo condições psicológicas e emocionais, eu superei”, relata meneando afirmativamente a cabeça. “Não se abata por coisas vãs, eu me colocava na condição de vítima. Hoje me sinto a dama do tabuleiro”, declara otimista e com um largo sorriso. “Não se feche, mesmo tido como louco, alguém vai te ouvir”.

     
    O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias.