• Caso João de Deus: Os bastidores da reportagem que prendeu o médium Segunda-feira, 01/07/2019 às 14:28:55

    Lucas Almeida

      O conjunto de relatos de 12 mulheres expostos pelo Jornal O Globo e também pelo programa Conversa com Bial que conta sobre os abusos sexuais cometidos pelo médium João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus divulgados em dezembro de 2018 resultou na prisão dele. Famoso pela realização de “cirurgias espirituais”, ele já atendeu políticos, funcionários públicos importantes e celebridades do Brasil e do mundo.
      Em entrevista exclusiva ao jornalismo da Rádio São Francisco, a editora do O Globo, Cristina Fibe contou ao repórter Jonathan Cavalcante detalhes de como foi realizado todo o processo da reportagem. A entrevista ocorreu durante o 14º Congresso de Jornalismo Investigativo, realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo. Confira os bastidores do processo da reportagem:



    Tempo de apuração

     “Foram três meses de apuração do caso, junto da repórter Helena Borges também do Globo. A Helena já havia ido a Abadiânia fazer uma reportagem sobre a cidade e voltou desconfiada de que algo maior estava acontecendo por ali. Na redação eu vi o post da Holandesa Zahira, que foi a primeira a publicar relatando assédio e quando compartilhado, nos comentários já vinham seguidos de mais relatos mencionando o médium.”

     Checagem dos Fatos

     “A repórter foi a procura dessas vítimas e apenas em uma semana, conseguimos seis mulheres sobreviventes que tiveram coragem de falar sobre o abuso. De certa forma os relatos seguiam um padrão sistematizado de como e quando ocorriam. A partir daí podemos entender que nada disso seria uma mentira, que a gente tava lidando com um caso maior e um sujeito muito poderoso que envolvia praticamente toda a economia de uma cidade. A reportagem tinha que ser publicada, mas deveríamos ter todo cuidado para não errar.”

     Defesa de João

     “Desde quando procuramos a assessoria, o João se mostrou muito na defensiva, ele dizia ‘Eu não fiz nada, essas mulheres não estão falando a verdade e medidas jurídicas serão tomadas para quem publicar essa estória’ e aía gente foi avançando na apuração tomando todo esse cuidado, porque ainda não havia aberto nenhum processo no Ministério Público.”

     Em Tempo

     Passados seis meses da denúncia de abusos sexuais de João de Deus, a Casa Dom Inácio de Loyola, onde ele realizava os atendimentos espirituais, segue aberta. O público, porém, foi reduzido. Segundo voluntários da instituição, em dias de muito movimento, o local chegava a receber 4 mil pessoas por semana. Hoje, não passa de 150, sendo a maioria estrangeiros.

     Após permanecer 76 dias internado no Instituto Neurólogico de Goiânia, João de Deus retornou ao Núcleo de Custódia do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital, no dia 6 de junho. A transferência foi determinada pela 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), durante análise de dois habeas corpus impetrados pela defesa. João de Deus estava internado para tratar um aneurisma no abdômen.

     O Ministério Público já denunciou João de Deus 10 vezes, sendo que uma das denúncias ainda não foi analisada pela Justiça. Ele é réu nas outras nove, que foram aceitas:

     Cinco por crimes sexuais: dessas, duas já tiveram audiência realizada e outras duas estão com audiência marcada; Uma por crimes sexuais, corrupção de testemunha e coação: ainda não teve audiência; Uma por crimes sexuais e falsidade ideológica: atualmente está em fase de citação (comunicação ao réu); Duas por posse ilegal de armas de fogo e munição. Uma já teve audiência realizada. O Tribunal de Justiça não deu detalhes sobre o outro caso.

    Foto: Divulgação/Weber Witt